segunda-feira, 18 de junho de 2012

Fígado e o Álcool: Via Oxidativa.


    Pessoal, vamos pensar nos efeitos que passar do limite alcoólico pode trazer ao nosso organismo, relativo ao seu metabolismo no fígado?    

       O álcool etílico ou etanol pode ser ingerido na forma de bebida alcoólica, unindo-se a diversos sabores, aromas e preferências dos mais variados consumidores. No entanto, o que acontece com esta substância uma vez que entra em contato com nosso organismo, e quais efeitos ela provoca? Diversos aspectos podem ser abordados, como a embriaguez (famosa bebedeira), a ressaca deixada no dia seguinte, entre outros efeitos momentâneos. Porém, é muito importante ressaltar os efeitos prolixos, derivados do uso constante, muitas vezes abusivo, e que pode deixar sérias lesões ao consumidor.
      Uma vez ingerido, o álcool, que não possui em si enzimas digestivas, percorre o caminho do sistema digestório, até chegar aos dois principais locais aonde se dará sua absorção: 0-5% do etanol é absorvido pela mucosa gástrica e o restante, cerca de 80 á 95% é absorvido na mucosa intestinal. Essa porcentagem pode variar de acordo com alguns fatores que alteram a absorção, como: temperatura, alimentos e presença de CO2. (Essa é uma das razões pelas quais se recomenda estar bem alimentado antes de beber. A presença de alimentos no sistema digestivo torna a absorção do álcool moderadamente mais lenta, já que este não é o único elemento a ser digerido).
        O etanol segue seu destino. 80-90% dele será oxidado no fígado, com o auxílio de enzimas. (os outros 10% se destinarão aos diversos tecidos do corpo humano caso o álcool tenha sido 90% metabolizado no fígado. Caso seu metabolismo no órgão seja de 80%, 10% restantes são destinados aos tecidos enquanto que os outros 10%  dele será expelido pela respiração ou excretado na urina). As enzimas que auxiliam nesse processo são a Álcool desidrogenase (ADH)- que catalisa a oxidação a acetaldeído; a CYP2E1, - principal componente do sistema microssomal hepático de oxidação do etanol (MEOS); e a catalase, - localizada nos peroxissomas dos hepatócitos, responsável por apenas cerca de 10% da oxidação. Vamos conhecer um pouco mais essas enzimas e suas propriedades para então passarmos ao seu funcionamento em conjunto:
      
     - Álcool Desidrogenase (ADH): Presentes no citosol, consiste em uma variedade de isoenzimas que oxidam álcoois de diferentes tamanhos de cadeia (classes 1 a 5). As da classe 1, no entanto, são as mais abundantes.
 - MEOS (Sistema Microssomal de Oxidação do Etanol): Enzima que envolve proteínas do complexo do citocromo P-450, consome NADPH e O2, produzindo H20 e radicais livres. Ela oxida cerca de 10 á 20% do etanol ingerido, podendo aumentar essa porcentagem de acordo com a ingestão do indivíduo.
Além de oxidar o etanol, a CYP2E1 inativa também diversos medicamentos - aumentando até mesmo a resistência de alcoólatras a alguns medicamentos -, além de potencializar os efeitos da medicação e do álcool quando ingeridos em conjunto.
- Catalase: Localizada nos peroxissomos, essa enzima utilizada é em escala menor, apenas quando há necessidade de reduzir o H2O2. Diferentemente de outras, não produz NADH.
- Aldeído Desidrogenase (ALDH): Encontra-se presente na mitocôndria e produz NADH. É utilizada no tratamento para alcoolistas envolvendo a inibição desta.
  
    Grande parte do álcool no sangue é metabolizado no fígado através de uma via principal e duas acessórias. O etanol é primeiramente convertido em acetaldeído pela álcool desidrogenase.
  

 O destino do acetato, convertido em acetil-CoA (acetil CoA-Sintase) pode ser dividido em três: Transformar-se em ácidos graxos, corpos cetônicos ou colesterol. Quando o acetil-CoA  é lançado na corrente sanguínea, pode ser oxidado em outros tecidos participando do Ciclo de Krebs.
        É necessário citar a energia  produzida diante todas esses processos e oxidações, que consomem diversos níveis de energia mas também as produzem: Forma-se 1 NADH citosólico (pela ADH) 1 NADH mitocondrial, 1 Acetil-CoA. A formação de ATP varia de acordo com a quantidade ingerida. Logo:
  
Quanto mais álcool > mais CYP2E1 ativada > Menos energia proporcionalmente obtida.

Em alcoolistas crônicos, uma menor quantidade de energia é aproveitada devido aos danos hepáticos recorrentes nesses indivíduos, fator que diminui a fosforilação oxidativa e indução do MEOS.

    

    Tendo em vista as reações ocorridas no metabolismo do álcool no fígado, vale abordar o tema das consequências e interferências da oxidação do composto em outros metabolismos. O aumento da relação NADH/NAD+ deriva um aumento substancial efetivo por não haver regulação efetiva da oxidação do álcool. Esse aumento altera todas as vias metabólicas do fígado, além de diminuir a via glicolítica e o Ciclo de Krebs, inibe a beta oxidação. Outra diminuição ocorrida através desta relação é a inibição da gliconeogênese (rota pela qual é produzida glicose a partir de compostos aglicanos (não-açúcares ou não-carboidratos), sendo a maior parte deste processo realizado no fígado  e uma menor parte no córtex dos rins.). A variação de NADH/NAD+  não possui apenas efeito redutivo, pois também aumenta a síntese de TA.G, que por sua vez pode causar a Esteatose Hepática além de aumentar a concentração de Lactato, causadora da doença conhecida como Gota.

     É importante citar também o fato interessante de que os alcoólatras encontram na oxidação do acetato pela aldeído desidrogenase uma aliada para o fim de seu vício. A enzima é inibida pelo dissulfiram. A via pela oxidase P-450 microssômica é induzida pelo álcool e outros agentes.

    Em suma, através das análises bioquímicas do composto em nosso organismo, colocando em voga a sua oxidação no fígado, nota-se a necessidade da sociedade consumidora em geral praticar um consumo consciente, moderado e saudável, visando evitar doenças reumáticas e metabólicas como as citadas, assim como se prevenir também contra doenças crônicas, como o alcoolismo; além de diversos outros danos prejudiciais como a  toxicidade aguda  ás demais áreas do corpo, afetando o SNC, e não sobrecarregar o fígado com a oxidação do composto. Logo, alerta-se a sociedade para uma reavaliação de suas atitudes perante a ingestão alcoólica, sempre visando o bem estar a si mesmo e aos demais.

Referências:


                                                                                       Gizelia Barros.




11 comentários:

  1. Muito bom o post, me ajudou muito, parabéns!

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  2. Adoreii!! Sou estudante de nutrição também e me empolguei para estudar sobre o assunto a partir de agora ;)

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  3. Interessante!! Vendo pesquisando sobre a metabolização do álcool por essas enzimas. Excluída a hipótese do individuo tomar dissulfiram é possível desenvolver inatividade da aldeído desidrogenase? Falo isso porque faz dois anos que não bebo pois fico muito vermelho, com coração acelerado e falta de ar. Isso com apenas um copo de cerveja. Acontece com qualquer tipo de álcool. Já fui a um hepatologista e os exames do fígado deram normais. Ele disse que nunca viu isso acontecer. Conheço várias pessoas que estão com esses sintomas ao ingerir bebida alcoólica é vários médicos desconhecem o fato. Parece que ninguém conseguiu um tratamento. Quero poder tomar um chop de vez em quando novamente. O pior que li em uma pesquisa que mesmo o indivíduo não consumindo álcool aumenta a possibilidade de ter infarto ou Alzheimer. Estou preocupado.

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    1. Wilson, tudo certo? Curso farmácia e lendo seu comentário cheguei a mesma conclusão que você. Pode ser que você tenha alguma irregularidade com essas enzimas que catalizam etanol. Procure realizar alguns exames bioquímicos. Abraços.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Se uma pessoa ingerir ÁLCOOL o hemograma VCM e no de Urina os CORPOS CETÔNICOS sofrem alterações ?.

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    1. Sérgio, no caso do hemograma não sei ao certo, mas acredito que o Volume Cospular Médio dos GV podem sim sofrer alterações por ingestão de etanol por conta da interação Hb e o processo oxidativo do produto. Mas no caso dos corpos cetônicos é verdade, o etanol atrapalha a glicogênese, restando a gliconeogênese como forma de encontrar energia para o metabolismo, esta porém, resulta em corpos cetônicos.

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